Desenterrando Maldições - Ep 04 - 1ª Temporada
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Quando perceberam que o furgão estava em chamas, o medo tomou conta deles, mas aos poucos, com a chegada de todos, é que Sérgio tentou se aproximar do fogo, para tentar enxergar algo lá dentro. Voltou para os outros e disse:
Sérgio:
Não tem ninguém lá dentro.
Thais:
Ah, que bom!
Ricardo:
Ela deve estar nessa estação, com certeza.
A estação de trem estava velha e descuidada, mas parecia firme. Uma das portas, de onde parecia ser onde funcionava a administração, estava aberta, e com aquele chaveiro que estava no bolso de Lumus na porta – Uma das chaves era daquela porta. Diego foi o primeiro a entrar e viu uma cama, com um delicado cesto em cima, agora vazio. Numa cadeira, do lado da cama e entre ela e um pequeno armário, estava Dani, calma e pacífica como ainda não foi visto, com Luquinhas no colo.
Diego:
Dani! Luquinhas!
Os outros se aproximam e entram. Vanessa é a última a entrar, ainda mancando e amparada por Dante e Ricardo.
Vanessa:
Meu Deus Dani, o que deu em você?
Dani olhou para Vanessa, arrependida
Dani:
Vanessa, desculpa, mas é que eu não estava conseguindo pensar por mim. O Luquinhas... eu... eu não sabia onde ele estava... eu não conseguia reconhecer ninguém.
Lili:
Eu entendo... esse lugar é maluco, enlouquece qualquer um...
Bel:
Por falar nisso, você poderia explicar para a gente onde é que diabos a gente es...
Ricardo interrompe Bel.
Ricardo:
Er... eu acho que não é hora para isso.
Sérgio:
Tu ta pirado? A gente quer saber logo onde é que a gente está!
Ricardo:
Sim, eu sei, e quero tanto quanto vocês. Mas vocês tem que entender que ela passou por um trauma forte, e eu sei que para pessoas que passam por isso o melhor é relaxar primeiro, dormir um pouco, e só falar quando se sentir segura.
Dani:
Nem se eu quisesse poderia contar...
Gustavo:
Como assim, alguém te proibiu!?
Dani:
É que agora me ocorre que eu não lembro direito das coisas...
Um lamento de decepção é emitido por todos. Sérgio e Gustavo saem do local e ficam na plataforma de embarque, sentados, esperando como se algum trem fosse passar naquele trilho. Thais e Lili sentam na cama com Dani e Ricardo diz:
Ricardo:
Olha, isso é normal ta? Não adianta se esforçar, as coisas têm que vir naturalmente na sua cabeça.
Dante e Diego se colocam na frente de Dani, passando Ricardo.
Diego:
Mas Dani, veja bem: Qualquer detalhe que você puder falar, qualquer coisa que ainda estiver na sua cabeça, isso tudo vai ajudar...
Ricardo:
Gente, não adianta, vocês não vão conseguir.
Egídio:
Então a gente vai ter que ir para aquele vilarejo que a gente viu no morro.
Dante:
Mas como? A Vanessa não pode andar mais nesse estado!
Vanessa estava sentada no canto do quarto.
Lili:
A gente pode ir amanhã então... agora a noite está caíndo já... E eu não quero mais ficar lá fora de noite.
Thaís:
Já está de noite? Nossa, eu não percebi...
Diego:
Quando chegamos aqui estava quase amanhecendo, agora está quase anoitecendo. Já estamos doze horas nesse lugar... as doze horas mais estranhas da minha vida.
Lili:
Até quando a gente vai ficar aqui?
Dani:
Muito, eu acho.
Egídio:
Ei, por que você está falando isso?
Dani:
Porque pelo pouco que eu me lembre, não adianta falar com as pessoas do vilarejo. Elas simplesmente esqueceram.
Bel:
Você lembra que elas esqueceram, é isso mesmo que você quer contar?
Dani:
Mais ou menos... eu acho... está tudo muito confuso.
Bel:
Eu só queria trocar de roupa, pelo menos isso, sabe? Mas não, explodiu tudo...
Dani:
Não! Deu tempo de tirar as coisas de vocês! Aqui é grande, gente, eu já abri a porta ali do lugar dos funcionários, onde se vendiam os bilhetes. Deixei as coisas de vocês lá... e quando estava lá dentro, ouvi a explosão. Foi isso!
Bel:
Ao menos isso... e banheiro, tem?
Dani:
Tem sim, no que seria a entrada, do outro lado. Dá para morar aqui...
Bel:
Ah, maravilha... essa nhaca de terra está demais!
Bel sai do “quarto” e atravessa a plataforma passando por Gustavo e Sérgio, que conversam.
Gustavo:
Tudo é culpa minha...
Sérgio:
Como assim? Deixe de conversa, rapaz! Isso aqui não é culpa sua...
Gustavo:
É sim, você ouviu o Dante, antes dele entrar no túnel... fui eu que errei o caminho.... devia ter outra entrada de trem por aqui, fui eu que não vi e acabei colocando todo o mundo aqui... era eu que estava dirigindo...
Sérgio:
Cara, não vem com essa, você ta vendo as coisas malucas, acho que o que o Ricardo falou fez algum sentido para mim. Acho que se a gente está aqui, é por um motivo forte, não por um erro de estrada...
Gustavo:
Não sei.
Sérgio:
... ou por culpa minha
Sérgio disse a última frase bem baixo, quase imperceptível, mas Gustavo notou o tom melancólico.
Gustavo:
O Que?
Sérgio:
Nada não...
Alguns segundos de silêncio ficaram no ar. Depois de um certo tempo, Gustavo tentou com toda a calma entrar em um assunto que ele julgava delicado.
Gustavo:
Você sabe que é meu amigo, né?
Sérgio:
Claro que sei, cabra
Sérgio dá um leve soquinho no ombro de Gustavo. Ambos sorriem.
Gustavo:
Olha só, naquela hora, na torre... com o cadeado que só podia ser aberto por um virgem...
A expressão de Sérgio mudou de repente.
Sérgio:
Vocês não entenderiam...
Gustavo:
Cara, pode falar que é virgem, imagina se logo eu vou te...
Sérgio:
Eu já tinha falado que não era isso!
Sérgio desce num pulo até o trilho e começa a andar em frente. Gustavo se levanta e vê o amigo se distanciando, mas não vai atrás. As palavras de Ricardo também ficam na cabeça dele. Tudo precisa ter seu tempo certo.
***
Flashback:
É noite em algum cemitério. Tudo que é possível ver é um cova, mas não é possível ver o fundo dela. Tudo que vemos é que de tempos em tempos um pouco de terra sai de dentro dela, com alguém retirando a terra de lá com uma pá. Uma cabeça se levanta: É Sérgio, mas é um Sérgio muito diferente do que vimos antes, além de estar sujo de terra, seu olhar conserva uma expressão maligna que não é normal. Numa cara entre sorriso e força, Sérgio arranca a tampa de um caixão e observa lá dentro, falando para si mesmo:
Sérgio:
Hahaha, sim, sim, isso... vamos ver... olha que belezinha, hmm, belos dentes, principalmente esse aqui, de ouro...
Com um alicate tirado do bolso, Sérgio arranca o dente dourado do cadáver e guarda em um pequeno saco de pano. Observa um cordão e o retira também. Observa os dedos em busca de algum anel, e o pulso em busca de um relógio. Sua cara de satisfação não aparece mais.
Sérgio:
Pouco, muito pouco...
Sérgio tampa novamente o caixão de qualquer maneira, sai do buraco e começa a empurrar a terra de volta com a pá. Enquanto faz isso, algo na tumba do lado chama sua atenção...
***
Fazendo o caminho de volta até a estação, Sérgio vem pensativo, muitas horas depois, já com a noite feita e apenas a luz da lua cheia. Ele entrou e viu todos dormindo em vários setores da estação, existiam colchonetes lá e alguém havia preparado um espaço para ele. Pela luz da lua ele pode ver o rosto agora tranqüilo de algumas pessoas, depois de horas sem descanso, já que estavam dentro do carro e não conseguiam dormir direito. Imaginou que precisava também de um banho. Se meteu no chuveiro e deitou, tentando dormir em paz. Como estava muito cansado, como os outros, não demorou a adormecer.
No dia seguinte, todos foram acordando aos poucas. Já estava de manhã quando todos levantaram. Uns acordando, outros sendo acordados. O fogo da Van já tinha se apagado. O choro de Luquinhas tratou de acordar os últimos que ainda dormiam, Sérgio e Vanessa.
A estação de trem tinha do lado dos trilhos uma escada de acesso ao lado da plataforma, que foi por onde eles entraram no dia anterior. A plataforma tinha ligação com um corredor que aos lados tinham portas para escritórios e no fim dele, a saída do outro lado, ou a entrada, apontando quase para a direção onde o vilarejo deveria estar, mas o mato impedia que algo pudesse ser visto. Todos tomaram o café da manhã que podiam, com os pacotes de biscoito que tinham nas malas.
Aos poucos, eles foram se lembrando que as coisas não estavam normais. Todos os eventos do dia anterior ainda estavam confusos. O túnel, o alfabeto estranho, a Torre onde a Dani estava morrendo... Aquela sensação de não saber onde está piorava. Gustavo adentrou no quarto menor, onde Dani dormiu. Lá estava ela com o Luquinhas, acompanhada de Ricardo, os dois conversando. Vanessa estava sentada no chão.
Gustavo:
Vamos?
Ricardo:
Vamos para onde?
Gustavo:
Para o vilarejo, oras.
Dani:
Mas... eu disse, não vai adiantar nada!
Gustavo:
O que a gente não pode fazer é ficar parado aqui! A gente precisa saber onde a gente está!
Dani:
Não vai adiantar, Gustavo... Infelizmente.
Vanessa:
Eu até quero ir. Mas a minha perna dói demais...
Ricardo:
Eu acho que a gente deveria ficar.
Gustavo:
Não é o que os outros acham.
Ricardo:
Os outros quem?
Gustavo:
Dante, Thais, Sérgio e Egídio vão comigo.
Daniela:
E o resto?
Gustavo:
Lili, Bel e Diego vão olhar com mais calma a área em nossa volta.
Ricardo:
Não seria melhor a gente conversar antes?
Gustavo:
Impossível, esses três já saíram.
***
Bel, Lili e Diego estão fazendo o caminho de volta pelo trilho, novamente em direção a cachoeira.
Bel:
Se aquele careca estava lá... como era o nome dele mesmo?
Diego:
Lumus.
Bel:
Isso, Lumus! Bom, se ele estava lá, é porque devia ter algo interessante ali.
Lili:
Interessante para ele.
Diego:
Sim, mas se era interessante para ele, é interessante para nós. Qualquer pista sobre esse lugar é válida.
Bel:
Estranho...
Lili:
Que foi?
Bel:
Esse lugar...
Diego:
É o trilho do trem, só estamos voltando por ele.
Bel:
Não, não... tem alguma coisa errada aqui...
Lili:
[hesitante] chegamos na cachoeira...
Próximo ao pequeno rio que corre fugindo da cachoeira, um monte de terra estufada marca o Local onde o misterioso Lumus foi enterrado. Os três encontram, esquecida ao lado, a pasta que continha a carta e os estranhos documentos.
***
Flashback:
Numa casa de subúrbio, uma bela loira está sentada, contando dinheiro. Poucas notas altas, muitas notas pequenas, fazendo um bolo grosso de notas velhas e coladas. Sérgio com aquele rosto meio maligno que vimos anteriormente entra na casa. Ele e a loira se beijam.
Sérgio:
Sônia, você não vai acreditar...
Sônia:
Que foi, amorzinho?
Sérgio:
Olha só isso aqui que eu achei no caixão daquele velho que morreu anteontem.
Sérgio retira um medalhão dourado, com uns 8cm de diâmetro, junto a uma grossa e longa corrente de ouro. O medalhão era a forma de uma cara monstruosa, com um imenso Rubi Retangular no lugar da boca.
Sônia:
O que é isso?
Sérgio:
Deve ser uma relíquea de família daquele velho, não é? Ele vivia sozinho, não deixou herdeiros...
Sônia:
Aquele velho me dava arrepios, e agora eu sei porque, olha só para isso! Ele tinha um negócio desses em casa! Viviam falando que ele era bruxo e tal, mas nunca acreditei...
Sérgio:
Essas coisas não existem... se existissem você acha que eu passaria noites e noites desenterrando corpos? Já teriam levado meu espírito, Hahahahaha!
Sérgio coloca o medalhão no peito e se exibe para Sônia.
Sérgio:
E aí, pareço um bruxo? Mulher, isso deve valer uma fortuna, estou rico, rico! Isso merece uma comemoração!
Sérgio vai até um pequeno armário e tira uma garrafa de vinho. Estende ao ar
Sérgio:
Ao dinheiro!
Sérgio toma um gole da garrafa e levanta Sônia, carregando-a entre risos e gritinhos para a cama.
***
No caminho para o vilarejo, Dante, Thais, Egídio, Sérgio e Gustavo seguem calmamente, tentando contornar a vegetação densa do local, sem perder a direção do vilarejo.
A vegetação é tipicamente tropical, mais densa ou menos densa em alguns pontos.
Gustavo:
O que será que tem nesse lugar?
Thais:
Segundo o que a Dani disse, pessoas normais...
Dante:
... só que não lembram de nada.
Egídio:
Nada reconfortante isso.
Sérgio:
O vilarejo está logo ali, basta seguir essa trilha aqui do meio desse mato...
Sérgio pára um instante, e os outros param também, tentando entender o que aconteceu.
Dante:
O que foi?
Sérgio:
Uma clareira... ali, olha.
Egídio:
Tem umas construções pequeninas ali, o que seriam aquilo?
Gustavo:
Já sei! É um condomínio para anões!
Sérgio:
Não...
Sérgio se aproxima mais em direção a clareira.
Sérgio:
É um cemitério...
***
Na Estação, Vanessa conversa com Dani, ambas sentadas, enquanto Ricardo observa os hematomas de Vanessa e aplica uma pomada de um relaxante muscular encontrada na dispensa da Estação de Trem.
Ricardo:
Isso aqui ta bem feio, vamos admitir...
Vanessa:
É, eu sei, eu não imaginava que a Dani poderia ter tanta força assim...
Vanessa dá um sorriso para Dani, que retribui de forma bem mais tímida.
Dani:
Eu não conseguia pensar em outra coisa.. anão ser nessa coisa fofinha aqui no meu colo.
Vanessa:
Sabe, em condições normais, eu digo, lá fora, longe daqui, onde quer que aqui seja, eu nunca te perdoaria, sabe? Mas eu estou um dia nesse lugar estranho e sei que pelo menos uns dois parafusos da minha cabeça já se soltaram. Você está aqui a quanto tempo?
Dani olha para o ato, num esforço para lembrar. Em vão.
Dani:
Não sei...
Ricardo:
Já disse que grandes traumas podem...
Dani:
Não é trauma, eu sei que estou aqui, eu sei que fiquei aqui um tempo, mas não lembro direito quanto tempo.
Vanessa:
O que você fazia por aqui?
Dani tremeu a boca com vontade de responder, mas tud que conseguiu foi cair no choro. Um choro triste e melancólico, mas baixo.
Dani:
Desculpa por isso...
Dani se levanta com Lucas no colo e sai pela porta.
Ricardo:
Por mais que esse lugar seja estranho, e que parece que ela esqueceu de alguma forma inexplicada, ainda restam com certeza traumas na estadia dela que ela não vai conseguir falar.
Vanessa:
O que a gente faz então?
Ricardo:
Espera. Não tem outra coisa para fazer a não ser esperar.
***
No caminho até o vilarejo, Sérgio, Dante, Thais, Egídio e Gustavo desviaram a rota por uma clareira. Lá, um pequeno cemitério foi construído, com lápides de pedra esculpida baixas, mas bem trabalhadas.
Sérgio:
Não pode ser...
Sérgio se dirige até a maior lápide do local. Os outros o acompanham.
Thais:
O que foi Sérgio?
Sérgio não responde, apenas se abaixa em frente a lápide.
Gustavo:
Isso é uma cara?
Sérgio:
Sabe quando vocês tem um deja vu?
Dante:
Eu não tenho muito isso não, mas o cara que esculpiu isso tem um péssimo gosto... Parece um monstro com um Rubi na boca...
Na lápide, está esculpida a forma do medalhão que Sérgio achou anteriormente. Sérgio coloca a mão na terra da frente da lápide.
Thais:
Que foi?
Sérgio:
Foi cavado recentemente... estranho, a terra parece velha mas foi mexida...
Gustavo:
Como se alguém tivesse cavado depois de terem enterrado?
Sérgio:
Exato.
Egídio:
Eu me preocuparia menos com isso agora... e tentaria entender porque tem duas covas preparadas ali.
Onde Egídio apontou, todos puderam observar que duas covas estavam preparadas para serem usadas.
***
Na cachoeira, Diego, Bel e Lili voltavam com a carta na mão.
Diego:
Parecia uma pessoa séria. Bem vestido, alinhado, mas sem identificação e sem carteira, dinheiro, relógio. É como se ele não precisasse.
Bel:
Quando o encontramos, ele parecia querer passar uma mensagem importante...
Lili
Devia mesmo, porque para confiar em desconhecidos só em último caso
Bel:
Mas eu não sei como vamos entender esses textos malucos.
Diego:
Existe uma maneira
As duas olham para Diego
Diego:
A Dani.
Lili:
Mas ela não se lembra de nada...
Diego:
... sozinha. Se a gente mostrar para ela esse texto...
Bel:
... talvez seja a chave de ignição do cérebro dela!
Diego:
É o que vamos ver!
***
Flashback:
Ângela, corpo magro e cabelos negros, de pele muito branca, ouve uma batida na janela do quarto. Alguém está jogando pedras. Ela vai observar e no andar de baixo vê Sérgio, sorrindo numa mistura de prazer e felicidade. Ela dá um sorrisinho abafado e desce as escadas de sua casa correndo, para abrir a porta dos fundos. Sérgio já está lá e assim que a porta abre ela recebe um grande beijo.
Ângela:
Não acredito que você apareceu de dia na minha casa! Se alguém achar você e contar para a Sônia...
Sérgio:
Hahahahaha, pode deixar! Se alguém resolver contar eu pago um suborno.
Ângela:
Ahn? Como assim?
Sérgio:
Estou rico, princesa, nós vamos embora daqui!
Ângela:
Rico como, cadê a Sônia?
Sérgio:
A Sônia foi dormir uma última noite na casa da mãe dela. Para se despedir da velha e para pegar umas últimas peças de roupas! Por isso que a gente vai fugir hoje a noite! Olha só isso aqui!
Sérgio mostra o medalhão com a boca em forma de Rubi. Ângela se assusta.
Ângela:
Nossa, assustador...
Sérgio:
Assustador, mas de ouro! Olha, você tem que arrumar as malas e aparecer lá em casa até hoje a noite, que amanhã de manhã a Sônia volta. Daí nós já vamos ter partido para uma nova vida!
Ângela abre um largo sorriso, suas feições ainda são de menina, muito ao contrário de Sônia, que já aparentava as rugas da idade.
Sérgio coloca o medalhão no pescoço e diz:
Sérgio:
Mas antes, eu vou comemorar um pouco também!
Sérgio pega Ângela no colo e sobe as escadas com ela, em direção ao quarto.
***
Sérgio, Dante, Thais Egídio e Gustavo chegam ao vilarejo. A cidadela parece comportar umas seiscentas pessoas, ou um pouco mais, é toda composta de várias casas, umas maiores, outras menores, mas nenhuma como a casa em frente a praça central. Todas muito claras. Apenas algumas partes do lugar eram colocadas pedras para as pessoas caminharem, a maioria do piso era direto na grama mesmo.
Dante:
É preciso encontrar alguém.
Egídio:
Olha, ali tem um velho!
Na frente de uma das pequenas casas, um senhor de cabelos brancos, rosto bonachão e de estatura média varre morosamente a calçada, usando uma vassoura de piaçaba muito desfiada. Enquanto os outros correm na direção deles, ele os percebe, mas não parece não se importar nem um pouco com eles e com o fato de serem desconhecidos.
Todos se aproximam:
Gustavo:
Estamos aonde?
Egídio:
Estamos onde, porra!
Gustavo:
Isso, isso. Estamos onde?
O senhor que está varrendo a calçada para de varrer e olha pausadamente para todos, de uma maneira extremamente serena. Depois de um tempo, começa a falar:
Velho:
Vocês chegaram quando aqui?
Dante:
Ontem.
Velho:
Bom, eu adoraria ajudar vocês a se adaptar nesse lugar, mas eu acho que vocês não apareceram em um bom dia. Hoje é um dia muito triste aqui.
Thais:
Triste? Adaptar? Do que você está falando.
Velho:
Não podemos explicar agora, infelizmente uma fatalidade aconteceu, e uma fatalidade que não sabemos explicar direito. Mas as duas únicas filhas de nosso líder morreram ontem de noite.
Egídio:
Líder, quem é o líder de vocês?
Velho:
Como eu ia dizendo, normalmente explicamos tudo que podemos, mas estamos todos traumatizados de tê-las visto envenenadas.
Sérgio:
Envenenadas?
Velho:
Sim, as encontramos de manhã, com manchas negras por todo o corpo, e...
O velho não conseguiu completar a frase. Como um raio, Sérgio o agarrou pela gola e o empurrou com toda força para a parede. Todos ficaram surpresos com o que aconteceu.
Dante:
Cara, o que você está fazendo?
Sérgio:
Me leve para essas meninas, e me leve agora!
***
Na estação de trem Dani olha com muita atenção para as folhas que Diego, Bel e Lili trouxeram. Todos em volta dela ficam em silêncio, aguardando ansiosamente um sinal. Dani tira os olhos dos papéis e diz:
Dani:
Nada, gente. Desculpa...
Ricardo junta os papéis e coloca novamente num envelope.
Ricardo:
Ok, Dani, relaxe, com o tempo você recupera sua memória.
Dani:
Acho que não é só isso, acho que eu nunca aprendi a ler esses símbolos.
Vanessa:
Voltamos ao zero!
Lili:
Talvez não.
Bel:
Por que? Só falta me dizer que você tem na mochila um dicionário desse alfabeto!
Lili:
Não, mas sou boa em reconhecer padrões. Com um tempo, posso adivinhar o que está escrito, ou pelo menos achar os padrões para comparar.
Diego:
Você pode simplesmente adivinhar?
Lili:
Não agora, eu preciso antes de algo que os decodificadores chamam de “guia”.
Vanessa:
E como funciona isso?
Lili:
Um padrão em duas línguas. Um texto que venha duplicado. Uma cópia num alfaeto que conhecemos, e outra nesse alfabeto. Com isso, e com o resto dos documentos que temos, seria possível traduzir isso.
Dani:
E o que vamos fazer com esses documentos aqui?
Lili:
Por enquanto, guardar. Em algum momento eles serão úteis.
***
Nos fundos de uma casa, em duas mesas simples de madeira, dois corpos cobertos em sua totalidade por um pano branco estão estendidos. Sérgio, o velho e os outros entram por uma porta lateral. Lá dentro, um senhor também de cabelos grisalhos, mas parecendo bem mais jovem que o velho que varria a escada esta sentado, entre as duas mesas.
Velho:
Senhor Zacarias, desculpa incomodar você, mas... esses aqui chegaram agora, eu contei o que tinha acontecido, mas esse rapaz aqui insistiu em ver o senhor.
Zacarias:
Ok, ok. Pode ir, eu converso com eles. Afinal, se eu aceitei essa função é porque tenho que fazer bem feito.
O velho se retira. Zacarias olha pausadamente para cada uma das pessoas presentes.
Zacarias:
Eu sei que estão cheios de dúvidas, e querem saber o que fazer daqui para frente, mas...
Sérgio:
Desculpa, mas o senhor está enganado. Eu não quero saber nada disso, não nesse momento.
Os outros olham surpresos para Sergio.
Sérgio:
Eu só peço, por favor, para ver as manchas do corpo das suas filhas.
Zacarias olha surpreso para Sérgio, mas em nenhum momento ofendido. Se dirige até um dos corpos e retira o lençol. A menina morta parecia ter 17 anos no máximo. Linda, rosto delicado, pele muito branca como a do pai, mas com assustadoras manchas negras pelo corpo. Zacarias retira o outro lençol e a mesma coisa ocorre. Thais se esconde no ombro de Dante.
Egídio:
Eram gêmeas...
Sérgio fira um dos corpos, e observa uma mancha na parte de trás do coração. Em seguida, faz a mesma coisa com o outro corpo.
Gustavo:
Olha só, duas manchas idênticas...
Dante:
Tem a cara de um monstro...
Sérgio fica frente a frente com Zacarias.
Sérgio:
Senhor, você saberia dizer se elas tem namorado?
Zacarias:
Não. Quer dizer, eu não sei. Bom, acho que elas me diriam.
Sérgio:
Alguma chance delas terem o mesmo namorado?
Zacarias:
Claro que não! Eu as eduquei muito e...
Sérgio:
e...?
Zacarias:
Bom, tem alguém que convivia muito com as duas...
***
Flashback:
Sérgio está na casa em que vive com Sônia, sozinho, com uma estranha cara de preocupação e andando de um lado para o outro. Tem uma mala de roupas no canto e um pequeno baú com cadeado, onde ele guardou o medalhão. Ouve baidas na porta e corre para atender, mas não era Ângela, eram dois policiais.
Policial:
Senhor Sérgio Campos?
Sérgio:
Sim, sou eu.
Policial;
Ah, bem que eu estava me lembrando desse nome.
Um policial sorri para o outro, como se tivessem ganhado um peixe bem maior do que imaginavam pescar.
Policial:
Três acusações de violação de tumba, três vezes liberado por falta de provas... sempre zombando da gente, conseguindo escapar da gente para continuar seus crimes, não é?
Sérgio já havia passado por situações como aquela, sabia o que falar.
Sérgio:
Bom, se não tem provas é porque elas não existem. Agora, se me dão licença eu tenho que arrumar umas coisas aqui em casa...
Sérgio já ia fechando a porta na cara dos policiais quando o segundo policial, até então calado, escancarou a porta com uma pancada.
Policial 2:
O curioso dessa situação, senhor Sérgio, é que dessa vez não estamos aqui por causa disso...
O policial retira uma fotografia do bolso, é um retrato de Ângela.
Policial 2:
O senhor conhece essa pessoa?
Sérgio:
Não, não conheço.
Os policiais sorriem novamente
Policial 2:
Sabe, isso é muito estranho, porque o faxineiro do prédio em frente a casa que ela mora disse que viu um senhor com as suas características saindo de lá, e dentro do apartamento, quando a retiramos, tinha uma carta endereçada a você, que ela escreveu com muita pressa e não conseguiu acabar, mas escreveu seu nome...
Sérgio:
Como assim, quando vocês a “retiraram”?
Policial 2:
Senhor Sérgio, Ângela Amorim Fagundes Santos foi encontrada morta por envenenamento em seu quarto.
Sérgio abaixou a cabeça, e automaticamente se arrependeu depois. Sabia que fazendo isso dava provas de que a conhecia e que havia se encontrado com ela.
Policial:
Eu acho que eu não preciso dizer que você é o principal suspeito dos dois crimes.
Sérgio:
Dois crimes?
Policial:
Pois é, senhor Sérgio, por umas dessas estranhas “coincidências” do destino, a senhorita Ângela era sobrinha neta de sua mulher.
Os policiais avançam sobre Sérgio e o imobilizam, derrubando-o e algemando-o.
Policial 2:
E que estranho, sua mulher também foi encontrada morta hoje pelo mesmo tipo de envenenamento.
Sérgio:
O que? Como isso aconteceu?
Policial:
É isso que você vai explicar na cadeia. Sérgio Campos, você está preso por homicídio duplamente qualificado!
Sérgio:
Mas eu não fiz nada!
O primeiro policial se aproxima do ouvido de Sérgio e fala pausadamente:
Policial:
Também nunca violou caixões, não é?
***
Iuri, um garoto de 16 anos, não estava entendendo o que estava acontecendo. Em seu quarto Zacarias e os outros o haviam prendido, enquanto Sérgio realizava uma busca frenética pelo quarto dele.
Em um certo momento, Dentro da fronha do travesseiro, Sérgio encontra o medalhão, o mesmo medalhão, só que com uma Esmeralda no lugar do Rubi. Aponta o medalhão na cara do garoto.
Sérgio:
Você sabe o que é isso? Isso é o mal! O mal que destrói tudo!
Iuri era uma rapaz frágil e assustado.
Iuri:
Mas, mas, eu... não sabia...
Sérgio:
Não sabia o que? Que é errado pegar coisas de dentro de caixões!?
Zacarias:
Ele fez isso? [vira-se para Iuri] Você fez isso, Iuri?
Iuri:
Fiz...
Iuri começa a chorar compulsivamente
Sérgio:
E fazer sexo com as suas primas, você acha isso legal?
Zacarias, até agora um pouco sereno, transformou-se de vez
Zacarias:
Você o que? Você fez isso?
Iuri:
Não!
Sérgio avançou na direção dele, com muita raiva, lembrando aquele rosto maligno dos flashbacks
Sérgio:
Fale a verdade, moleque!
As outras pessoas presentes estavam assustadas com a reação de Sérgio.
Iuri:
Eu fiz! Eu fiz! Tá, eu fiz! Mas foram elas que pediram, foram elas que queriam!
Depois dessa frase, o silêncio só não era total apenas por causa do choro compulsivo de Iuri. Zacarias tornou a ser sereno.
Zacarias:
Iuri, você traiu a minha confiança, e ajudou na morte das minhas duas filhas. Condeno você a ser banido para sempre de nossa comunidade.
Iuri:
Mas eu não tenho para onde ir! Vocês mais velhos é que nos contam que esse lugar é perdido no mundo!
Zacarias:
Não me interessa, Iuri. Você tem que sair em duas horas daqui.
Iuri:
Mas o que garante que o medalhão e minha história com as duas tenha a ver com a morte delas? Como você vai confiar em alguém que acabou de chegar?
Zacarias:
Você sabe muito bem que eu sei reconhecer a verdade nos olhos das pessoas, não é? Infelizmente, eu confiei em você demais para tentar enxergar alguma mentira.
Iuri volta a chorar forte.
Zacaras:
Arrume suas coisas e suma daqui em duas horas.
Iuri observa Zacarias saindo do quarto. Um a um, os outros também vão saindo do local. O último a se retirar é Sérgio, que dá uma última olhada para Iuri. Os dois se entreolham e Sérgio se assusta.
Na face de Iuri, Sérgio consegue reconhecer o mesmo olhar maligno que tinha anos atrás. Iuri fixa o olhar em Sérgio, um olhar carregado de raiva e de desejo de vingança.
***
Flashback:
Na cadeia, Sérgio está no telefone e está fazendo uma ligação.
Sérgio:
Mano, eu juro, eu juro! Não tive culpa nenhuma em nada... vem me ajudar, por favor.. isso, isso.. obrigado mano, obrigado.
Sérgio desliga o telefone e é escoltado para a cela pelo mesmo policial que o prendeu.
Policial:
Deve ser horrível para o seu irmão ter o mesmo sangue de um monstro.
Sérgio:
Para seu governo, eu sou inocente, mas sinceramente, eu não me importo com o que você ache ou não ache de mim. Ainda digo mais, meu irmão é um dos melhores advogados de São Paulo, quando ele chegar aqui vai processar você até arrancar o último pelo da sua b...
Policial:
Oooo, mais que boca suja! Mas sabe, até que faz sentido você ter uma boca suja. Ao menos logo logo fará sentido.
Eles chegam em frente a cela, que é aberta.
Policial:
Esqueci de mencionar que a perícia descobriu que elas mantiveram relações sexuais horas antes de morrer... e você sabe como estupros seguidos de morte são recebidos aqui não é?
Sérgio é arremessado dentro da cela, que é fechada...
***
Na praça central, deserta, Zacarias conversa com os outros.
Zacarias:
Normalmente explicaríamos tudo muito bem para vocês, mas as circunstâncias de hoje me obrigam a adiar isso... Mas o que posso adiantar é que estamos perdidos como vocês, e não podemos sair como vocês, e queremos sair como vocês, mas as coisas vão se dificultando quanto mais o tempo passe.
Egídio:
Existe algo que possamos fazer de imediato?
Zacarias:
Não. Existe mais gente com vocês?
Dante:
Sim, temos outras pessoas na...
Zacarias:
... estação de trem, não é?
Todos olham assustados para ele.
Zacarias:
Todos que chegam acabam primeiro lá, não sei porque... Bom, façamos o seguinte. Amanhã eu irei até lá e conversarei melhor com vocês. Por hoje, apenas tentem não pensar muito sobre isso, costumamos ter muita dor de cabeça quando estamos estressados aqui.
Sérgio:
Lamento por suas filhas.
Zacarias:
Obrigado, e obrigado novamente por me ajudar a desvendar o que aconteceu.
Sérgio:
Acredite, eu fiz por mim.
Sérgio se vira e volta em direção a trilha, mas com um pequeno desvio, na rota do cemitério. Os outros o acompanham.
***
Na estação, Diego, Bel, Lili, Vanessa e Dani com Luquinhas no colo estão na plataforma de embarque e desembarque. Ricardo está deitado no quarto onde Luquinhas foi achado.
Diego:
Daqui a pouco anoitece... e ainda não sabemos nem que direção tomar...
Lili:
Quanto tempo mais a gente vai ter que ficar aqui?
Vanessa:
Eu acho que precisávamos de um meio de nos comunicarmos com o outro lado do túnel.
Bel:
Os celulares não funcionam.
Vanessa:
Não separados, mas talvez se achássemos uma forma de ampliar o sinal de todos eles ao mesmo tempo... ou de ao menos captar um sinal do céu... eu preciso me comunicar...
Vanessa começa um novo choro. Dani retira do bolso um lenço e entrega para a amiga. É o mesmo lenço que Lumus entregou para Dani quando encontrou com ela no vagão do trem-bala. Vanessa enxuga as lágrimas, mas depois para e olha para o lenço com mais atenção...
Vanessa:
Tem escrito aqui “A.F.”
Dani:
Era o lenço daquele careca, ele me disse que o nome dele é Augusto Ferreira.
Vanessa:
Mas não é só isso aqui não, tem três palavras escritas naquele alfabeto...
Todos se juntam para observar melhor
Bel:
A terceira palavra está maior que as outras, e é mais curta!
Diego:
Será que o que está escrito aí possa ser...
Lili:
Augusto Ferreira – Lumus!
Vanessa:
Isso, agora já temos uma base para decifrar os papéis!
Lili:
Vou fazer isso já!
Lili se levanta e vai em direção ao quarto. Quando entra lá, vê Ricardo dormindo e nada do envelope com os papéis. Ouve na verdade é um barulho na plataforma. Ao chegar lá novamente, se depara com todos eles desapontados.
Lili:
O que aconteceu gente?
Ricardo aparece logo atrás dela.
Ricardo:
Que barulheira foi essa?
Bel:
Vocês não vão acreditar. Um beija-flor.
Lili:
O que tem?
Diego:
Era um beija-flor negro igual ao que vimos no posto..
Lili:
Sim, mas o que tem?
Vanessa:
O que acontece, Lili, é que ele acabou de sair voando daqui dando a volta pela estação.
Dani:
E tinha o envelope amarrado na perna dele...
***
No cemitério, todos observam Sérgio em frente a tumba com o desenho do medalhão em relevo. Ele retira um punhado de terra da frente e coloca o medalhão com a boca de Esmeralda lá dentro.
Sérgio:
Em nome de Iuri, peço perdão por violar o que é dos mortos. O que é do corpo ainda é do espírito. Que a alma de iuri seja perdoada.
No fundo, observando de noite no começo do anoitecer, um raivoso Iuri observa Sérgio de longe. Ainda com o mesmo olhar de raiva.
Ainda com o mesmo ardente olhar de vingança.
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